A arma do sucesso chinês: boa educação
Lembremos que a China cometeu um erro gravíssimo ao fechar as universidades durante a Revolução Cultural (1966-1976), mas o erro está sendo corrigido.
Já no final da década de 1970, Deng Xiaoping promoveu avanços tremendos em todos os níveis da educação, em especial no universitário. De 600 faculdades existentes em 1978 o país passou para 2 mil em 2008 - e não para de aumentar. No ano de 2000, 40 mil jovens chineses foram estudar nas melhores universidades do mundo. Esse foi só o começo. Em 2008 eram 420 mil (110 mil só nos Estados Unidos), a maioria em cursos de pós-graduação (Amelie F. Constant e colaboradores, China"s Latent Human Capital Investment, Institute for the Study of Labor, abril de 2011). O Brasil também aumentou a exposição de seus jovens ao ensino no exterior. Mas as diferenças são colossais. Por exemplo, enquanto a China manteve, em 2009, 120 mil jovens nos Estados Unidos (a maioria em pós-graduação), o Brasil tinha apenas 7,5 mil: 450 em cursos de curta duração (em geral de inglês), 3,7 mil em cursos de graduação e apenas 3,3 mil em pós-graduação.
A caminhada a ser vencida é enorme. Mas temos de reconhecer que os planos de Dilma são avançados. Ela pretende mais do que dobrar o número de bolsistas brasileiros nas ciências exatas. Certíssimo! Outro capítulo das reformas de Dilma é o Programa de Ensino Técnico (Pronatec), que busca criar cerca de 8 milhões de vagas nas escolas técnicas até 2014 - 2 milhões por ano. Mais uma vez, certíssimo! É claro que esses são apenas números, enquanto, neste campo, o que mais conta é a qualidade do ensino. No plano educacional da China está sendo dada uma especial atenção a esse aspecto. O país tem 300 milhões de estudantes e 14 milhões de professores - todos eles cobertos por um programa de atualização de conteúdo e aperfeiçoamento didático. Uma enorme atenção está sendo dada à pré-escola para fazer os alunos aprenderem mais devagar, mas com maior profundidade.
No campo administrativo, a China está descentralizando a gestão das escolas, passando a maior responsabilidade aos governos locais e sob o controle das comunidades. A propósito, a China conseguiu envolver todo o povo na discussão do referido plano, deixando claro que a melhoria de vida nas gerações atual e futura dependerá fundamentalmente não apenas de educação, mas de uma boa educação. Cerca de 75% dos chineses conhecem e apoiam o plano. Essa é uma outra diferença em relação ao Brasil. Entre nós, a maioria dos pais fica satisfeita quando seus filhos conseguem um lugar nos bancos escolares, pouco se importando com o que e como as escolas ensinam seus filhos. Oxalá os planos de Dilma sejam concretizados e acompanhados com uma boa atenção à questão da qualidade do ensino.
José Pastore
Artigo publicado no Estado de São Paulo
Doutor Honoris Causa em Ciência e Ph. D. em sociologia pela University of Wisconsin (EUA). É professor titular da Faculdade de Economia e Administração e da Fundação Instituto de Administração, ambas da Universidade de São Paulo. É pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas e consultor em relações do trabalho e recursos humanos.
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